O relógio estava a 5 minutos da ave Maria. Entrara no ônibus
inquieto, ofegante, pisando firme. Sentira-se como que um fugitivo. Quiçá o
fosse. Talvez porque pensara no peso que lhe caíra sobre os ombros. Não se dera
conta ainda do que era responsabilidade. "Já comprou a passagem,
senhor?!" Ecoou um timbre de voz grave. Pensara no que responder. Exitou
por um instante buscando a palavra. Respondera que sim. "Aí está".
Acrescentou meio rouco. Pigarreou... Após recebê-la de volta guardou-a na ciência
de que lhe seria solicitada no porvir. Ah se tivesse comido um pouco a mais
daquela sopa! A fome? Cousa corriqueira em sua jornada. A escuridão... O
barulho do motor. Silêncio de vozes. Perímetro urbano de Batalha. Lia-se numa
placa azul que o farol por um instante encontrou em meio à escuridão do lado de
fora. Lembrou-se dos amigos. Pensara em desistir. Pensara na saudade que
sentiria a partir dali. Mas enfim foram apenas pensamentos. Tão rápidos que nem
ao menos ele saberia precisar em segundos. Estava agora distante e pensara em
ler. Escuridão... Estava impossibilitado de ao menos verificar se o que aquele
sorriso inusitado do guichê havia escrito em seu bilhete correspondia ao valor
pago. Desatenção. Pensou em não permitir que isso se repetisse. Teria aprendido
o suficiente para sobreviver a partir de agora? Nadar sozinho? Pegar o leme e
assumir rumo ao norte? Inquietações mil. Escuridão. O ronco do motor. Se ao
menos tivesse comido um pouco a mais daquela sopa! Pensara em dormir. Por um
instante quisera esquecer de tudo aquilo, mas a ansiedade não o permitiria. Uma
freada brusca! Uma malhada na escuridão do asfalto. A caneta teria borrado o
papel de certo. Uma companhia? Apenas outras vidas preocupadas e cansadas que
seguiam viagem caladas e na penumbra. Sabe Deus que inquietações teriam. Sempre
ouvira dizer que cada cabeça carregava uma sentença. Talvez a sua, naquele
momento, fosse exatamente o que tentara veementemente evitar que os outros
cultivassem: sofrimento por antecipação. Que ironia! O tilintar dos vidros nas
janelas assemelhava-se a gargalhadas amargas, sem vontade, sem verdade. Vozes
inaudíveis (ou ininteligíveis) que sussurravam ao passo que gritavam.
"Abra a janela, Hithcliff. Sou eu, Cathy. Voltei para casa. Aqui fora está
frio. Deixe-me entrar!" Lembrou-se de seu livro favorito... Ah como queria
ler naquele momento! Da sopa restara apenas a lembrança. E o barulho do motor
embalaria a sua jornada solitária até que se fizesse luz no momento do
desembarque. Não estaria mais ofegante. Não pisaria mais firmemente. Talvez o
sono o anestesiasse... Talvez.
Piauí, Setembro de 2019

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