quarta-feira, 29 de março de 2023

Minha escola


 

A minha escola é muito legal.

Todo dia eu vejo o meu amigo Nicolau.

Quando vejo o diretor, imagine a minha dor.

Quando vejo a Eridan*, fico igual ao Peter Pan,

voando, voando e nunca estudando.

Minha escola é muito legal.

As salas são sempre limpas, só não quando a gente brinca de jogar papel nos outros.

Enfim, minha escola é muito legal.

Só que hoje eu não vi o meu amigo Nicolau.


*Professora de língua portuguesa da 6ª série na escola onde estudei em Teresina, PI. 

Texto escrito em uma questão de avaliação de língua Portuguesa na 6ª série em 2000.

Crônica 01


 

O relógio estava a 5 minutos da ave Maria. Entrara no ônibus inquieto, ofegante, pisando firme. Sentira-se como que um fugitivo. Quiçá o fosse. Talvez porque pensara no peso que lhe caíra sobre os ombros. Não se dera conta ainda do que era responsabilidade. "Já comprou a passagem, senhor?!" Ecoou um timbre de voz grave. Pensara no que responder. Exitou por um instante buscando a palavra. Respondera que sim. "Aí está". Acrescentou meio rouco. Pigarreou... Após recebê-la de volta guardou-a na ciência de que lhe seria solicitada no porvir. Ah se tivesse comido um pouco a mais daquela sopa! A fome? Cousa corriqueira em sua jornada. A escuridão... O barulho do motor. Silêncio de vozes. Perímetro urbano de Batalha. Lia-se numa placa azul que o farol por um instante encontrou em meio à escuridão do lado de fora. Lembrou-se dos amigos. Pensara em desistir. Pensara na saudade que sentiria a partir dali. Mas enfim foram apenas pensamentos. Tão rápidos que nem ao menos ele saberia precisar em segundos. Estava agora distante e pensara em ler. Escuridão... Estava impossibilitado de ao menos verificar se o que aquele sorriso inusitado do guichê havia escrito em seu bilhete correspondia ao valor pago. Desatenção. Pensou em não permitir que isso se repetisse. Teria aprendido o suficiente para sobreviver a partir de agora? Nadar sozinho? Pegar o leme e assumir rumo ao norte? Inquietações mil. Escuridão. O ronco do motor. Se ao menos tivesse comido um pouco a mais daquela sopa! Pensara em dormir. Por um instante quisera esquecer de tudo aquilo, mas a ansiedade não o permitiria. Uma freada brusca! Uma malhada na escuridão do asfalto. A caneta teria borrado o papel de certo. Uma companhia? Apenas outras vidas preocupadas e cansadas que seguiam viagem caladas e na penumbra. Sabe Deus que inquietações teriam. Sempre ouvira dizer que cada cabeça carregava uma sentença. Talvez a sua, naquele momento, fosse exatamente o que tentara veementemente evitar que os outros cultivassem: sofrimento por antecipação. Que ironia! O tilintar dos vidros nas janelas assemelhava-se a gargalhadas amargas, sem vontade, sem verdade. Vozes inaudíveis (ou ininteligíveis) que sussurravam ao passo que gritavam. "Abra a janela, Hithcliff. Sou eu, Cathy. Voltei para casa. Aqui fora está frio. Deixe-me entrar!" Lembrou-se de seu livro favorito... Ah como queria ler naquele momento! Da sopa restara apenas a lembrança. E o barulho do motor embalaria a sua jornada solitária até que se fizesse luz no momento do desembarque. Não estaria mais ofegante. Não pisaria mais firmemente. Talvez o sono o anestesiasse... Talvez.

Piauí, Setembro de 2019